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Pais desembolsam até R$ 1,6 milhão com a criação dos filhos.

As classes intermediárias, chamadas genericamente de B e C, não deixam por menos e gastam R$ 883 mil e R$ 407 mil.

Artigo por Mariana Segala, Agência Estado, 01/04/2008

Tripe da indústria.

Que criar um filho custa caro, ninguém duvida. Mas quem arrisca um palpite de quanto é o dispêndio total? Uma equipe do Instituto Nacional de Vendas e Trade Marketing (Invent), sob a coordenação do diretor Adriano Amui, colocou na ponta do lápis cada gasto de 320 famílias brasileiras com os herdeiros, da infância até os 23 anos. Resultado: os filhos dos ricos custam em média R$ 1,6 milhão, ou 23 vezes os R$ 68 mil gastos pelos mais pobres.

As classes intermediárias, chamadas genericamente de B e C, não deixam por menos e gastam R$ 883 mil e R$ 407 mil até os filhos terminarem os estudos. “Nesse momento de projeção do País, mesmo com um real incremento de renda, a discrepância social ainda é muito grande”, comenta Amui.

O traço comum entre todos os grupos – à exceção da classe D – é o pesado investimento na educação das crianças. “Isso demonstra uma crença de que a educação significa a melhor semente que se poderia plantar para um filho”, conclui o pesquisador. Em entrevista à Agência Estado, ele explica os detalhes do levantamento.

Agência Estado – Os gastos para criar um filho até os 23 anos diferem muito entre os grupos estudados. Você concorda que isso mostra em números o tamanho da desigualdade social brasileira?
Adriano Amui – Exatamente. Nesse momento de projeção do País, mesmo com um real incremento de renda, a discrepância social ainda é muito grande, característica dos países em desenvolvimento. A classe A gasta R$ 325 mil em lazer e entretenimento com o filho, o que praticamente coincide com o gasto total da classe C, que atinge R$ 407 mil. Por outro lado, a mesma família da classe A investe R$ 600 mil em educação, o que é fundamental. As classes B e C também têm gastos importantes, de R$ 365 mil e R$ 185 mil. É um salto em relação ao zero da classe D. Isso é um sintoma muito positivo do novo Brasil que se cria, é uma das nossas principais conclusões. As famílias brasileiras podem ter o deslumbre do consumo, mas começam gradativamente a registrar valores, como é a educação.

Agência Estado – A que faixas de renda correspondem as classes A, B, C e D apontadas no estudo?
Adriano Amui – Prefiro explicar de outra maneira, pois faixas de renda são complexas para entender regionalidades. Classe A é a que não apresenta qualquer dificuldade financeira. Tem capacidade de consumir tudo quanto deseja e, portanto, seu nível de consumo é estabelecido pelo desejo próprio. Classe B é a que chamamos de média-alta. Seu consumo não é completamente regido por um orçamento pré-estabelecido, mas faz gastos com rédea mais curta. Classe C é a nova classe emergente brasileira. São pessoas empregadas beneficiadas nos últimos cinco a dez anos de um incremento relativo de renda. São ávidas por consumo, oriundas da classe D e altamente impactadas pelo aumento da disponibilidade de crédito. É gente que se endivida para realizar os sonhos. Na classe D estamos falando do brasileiro típico. Ele está nos bairros fora da grande cidade, nos redutos de baixa renda. Aqui está o Brasil.

Agência Estado – No dia-a-dia, percebe-se que a maior parcela de gastos das famílias com os filhos se concentra na educação, o que é mostrado de fato no levantamento. Isso demonstra que educação é a principal preocupação com os pais?
Adriano Amui – Isso demonstra uma crença de que a educação significa a melhor semente que se poderia plantar para um filho. Também demonstra a absoluta descrença do brasileiro com relação à educação pública. Será que isso é cem por cento legítimo? Quanto desse esforço se volta efetivamente em favor da criança? Quem está nas classes A ou B tem muito pouca chance de errar. Tendo condição financeira para escolher uma escola com histórico de sucesso absoluto, tenho certeza de que vai ter bom resultado. Mas a família da classe C fica no limite. Apesar de não conseguir acessar as escolas melhor ranqueadas, faz um investimento pesado [R$ 96 mil]. Esse dinheiro não seria melhor aplicado se fosse para outra atividade complementar à educação pública?

Agência Estado – O porcentual de comprometimento do gasto total com educação aumenta conforme cai a classe. O grupo A gasta 37% da renda inteira com a escola. No grupo B, são 41% e no C, 45%. O que isso demonstra?
Adriano Amui – Esse é o tamanho do esforço que a família faz. Surpreende também o grupo “tendências” [que inclui os gastos com brinquedos, informática, telefonia e novas tecnologias]. Nas classes A e B, todos os quartos das crianças têm notebook e TV de plasma. Então, quais são os valores firmados pela família? Por traz de um orçamento deve haver um fio condutor, regido por valores familiares. Não consigo conceber a necessidade de um notebook para uma criança de cinco anos. Além disso, criam-se nichos dentro das famílias. O jantar fica muito rápido porque cada um vai assistir TV no seu quarto. As famílias perdem o tempo de ficar junto para discutir tais valores. Muitas despesas são usadas pelas famílias que têm pouco tempo como uma maneira de se auto-punir pela sua ausência.

Agência Estado – Os gastos com atividades extra-curriculares também é grande, passando de R$ 49 mil na classe mais alta e chegando a quase R$ 17 mil no grupo C. Tanto dispêndio é de fato necessário?
Adriano Amui – Na classe mais simples, essas atividades não são mais do que um complemento à escola. Não passa do inglês, judô ou balé. No nosso entender, isso é saudável e minimamente necessário. Nas classes mais abastadas, há o fenômeno da transferência dos hobbies da família para a criança, que também faz o futebol de que gosta, a natação indicada pelo médico, a oficina de teatro para superar a timidez. Essa história cria uma redoma. A criança tem uma agenda repleta, mas não tem tempo de viver. Isso parece preocupante e leva a pensar sobre o quanto é benéfica essa sobrecarga.

Agência Estado – Percebe-se que as famílias têm feito um esforço também para formar o que o estudo chama de reserva financeira, que já é possível nas classes A, B e C. A classe D não consegue poupar para os filhos, de acordo com o estudo.
Adriano Amui – A reserva financeira é outro valor importante. Mais e mais as famílias acreditam que se querem dar um futuro positivo ao filho ou subsidiar uma necessidade, o melhor é poupar agora. Isso surpreende, pois não existia. No grupo D, infelizmente toda a despesa é praticamente para a subsistência. Ele come e coloca alguma roupa nas crianças. Um fenômeno interessante a registrar na classe D é que se percebe um incremento na despesa com vestuário quando a criança completa cinco anos. Isso é típico do momento em que os filhos começam a perceber o peso das marcas e os valores dos grupos a que pertencem. Até o quarto ano, período em que tipicamente mais se compra roupa, eles vestem o que mamãe manda. Depois, a quantidade de roupa diminui e fica mais seleta. É quando escolhem que tribos que seguirão.

Agência Estado – Qual a principal dica financeira para famílias que pensam em ter filhos?
Adriano Amui – A grande dica é fazer um planejamento, que significa apontar quanto você pode gastar – ou seja, não assuma responsabilidades maiores do que pode arcar só porque tem acesso a crédito fácil – e escolher precisamente os aspectos que quer privilegiar para a criança.

Matéria no Site da Agência Estado.


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