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01/03/2008
"As empresas que não assumirem as responsabilidades de trade marketing não serão competitivas. Elas terão mais dificuldade de relacionamento com os canais intermediários e menor eficiência em suas ações."
A afirmação é de Adriano Maluf Amui, diretor do Instituto Nacional de Vendas e Trade Marketing (Invent) e da Esfera Gestão Empresarial. Professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e também do Mackenzie, Maluf, que trabalhou na Shell, na Parmalat e na Nestlé, comenta, nesta entrevista, sobre os problemas e desafios com que a área se defronta e falou sobre as oportunidades de retorno que o mercado proporciona às empresas que têm uma área de trade marketing bem estruturada.
DB – Qual é o papel atual do trade marketing nas
indústrias?
Adriano Amui - O trade precisa influenciar as
indústrias em alguns aspectos, como, por exemplo, pricing, formas de pagamento e
de embalagem, e também, fundamentalmente, quanto à necessidade de ele adotar o
formato de capilaridade. Você precisa formar uma rede muito sólida de parceiros
atacadistas e distribuidores para poder prestar um bom atendimento tanto ao
pequeno varejista como aos outros formatos de varejo. O entendimento da
necessidade do trade marketing é fundamental e, atualmente, as indústrias sabem
da importância disso, tanto que elas buscam treinamento e informação. Hoje, elas
reconhecem a necessidade de nomear alguém para pensar em tendência e outra
pessoa para pensar no ponto-de-venda.
DB – Há conhecimentos amplos para todas as categorias de
negócio?
Adriano Amui – Ainda não, pois isso requer
discussões, mas todos estão buscando o caminho. Algumas indústrias, como a
Unilever e a Nestlé, estão se dando muito bem nesse sentido. As demais ainda
estão formando estrutura, e é o tempo o que vai fazer com que tudo isso
funcione. Mas existem algumas regras básicas para se ter sucesso nessa área. O
passo número um é o reconhecimento de que o trade existe. O passo número dois é
o reconhecimento de que o trade é maior do que promoções e eventos. Não se
precisa de uma área de trade marketing para cuidar de promoções e eventos. O que
se precisa é de uma área de promoções e eventos subordinados ao marketing. O
papel primário do trade marketing consiste em entender a estratégia de marketing
e, depois de entender também a necessidade de vendas, costurar e customizar um
plano para que a pessoa responsável pelas vendas receba um plano executável.
DB – Isso está claro para as indústrias?
Adriano
Amui – Temos isso resolvido em 70% dos casos. O passo número três
consiste em promover a educação quantitativa no trade, ou seja, fazer com que as
pessoas entendam a necessidade de medir as coisas, de fazer planejamento e de
entender que, de fato, elas têm de ir à região para fazer com que as coisas
funcionem. Não adianta manter o pessoal do trade sentado em São Paulo planejando
as vendas para o Nordeste. O trade é realizado pelo indivíduo que fala a língua
da região em que pretende atuar, e que conhece essa região. O profissional da
região não pode receber a bola quadrada. Ele tem de receber a bola com o
posicionamento de preços e as ações apropriadas para sua área. Não se pode
realizar ações que não condigam com a realidade do mercado a ser explorado,
como, por exemplo, a de tentar vender café em um local onde só se toma chimarrão
ou a de ir para a periferia tentar vender refrigerantes de ponta se nesse local
as pessoas só consomem marcas mais baratas.
DB – E qual é o papel do pricing nisso
tudo?
Adriano Amui – O pricing foi uma das coisas mais
importantes que aconteceram no trade marketing. Ele tem de fazer com que o
produto seja competitivo e tenha um preço por canal, por região e, muitas vezes,
por cliente.
DB – Qual é o maior desafio que a área de trade enfrenta
atualmente?
Adriano Amui – É o de conseguir utilizar o
dinheiro do trade marketing para tentar rentabilizar melhor as vendas. Mas
também vale a pena converter esse dinheiro destinado à área de trade marketing
em atividades de educação e treinamento ou em benefícios para os funcionários. A
empresa não precisa ter um quadro de trade marketing. O que ela precisa é
reconhecer as funções de trade e incumbir alguém de realizá-las. Se a empresa
quer destinar metade desse dinheiro para vendas e metade para marketing, isso é
irrelevante. As empresas que não assumirem as responsabilidades de trade
marketing não serão competitivas. Elas terão mais dificuldade de relacionamento
com os canais intermediários, menor eficiência em suas ações e maior
probabilidade de, em curto e médio prazo, ficarem fora do jogo. O consumidor
decide a compra no ponto-de-venda. O jogo está lá, voltado para o shopper. Uma
venda perdida não se recupera mais. Suas decisões serão muito menos estratégicas
e mais pontuais.
DB – Uma boa área de trade marketing garante a perpetuidade
da indústria?
Adriano Amui – Ela garante a venda day-by-day.
A perpetuidade da indústria é responsabilidade do marketing. Por isso, é
irresponsabilidade deixar que todo o dinheiro de marketing migre para o trade
marketing baseando-se meramente nos resultados do dia-a-dia. O próprio atacado é
influenciado por isso, pela competitividade do seu preço, e quem define isso é o
trade marketing. Mas ele também é muito influenciado pela imagem do produto, e
quem define isso é o marketing. O atacado não vai vender um produto que não
oferece uma boa comunicação, e por isso, com o tempo, ele vai retirar o produto
do seu portfólio.
DB – Quando as empresas se deram conta da importância de
investir na área de trade marketing?
Adriano Amui – No
governo Collor, houve a abertura do mercado e o Brasil passou a receber novos
produtos. Todo o mundo entrou no País e a competição começou. A partir daí,
aconteceu uma coisa clássica: a gôndola não é elástica e se ela não é elástica
eu preciso ter o meu espaço para vender o meu produto. Por isso, aconteceu a
competição e a concentração. Nesse meio tempo, eu descubro que tenho de começar
a pensar em como é que eu vendo e qual o produto para esse canal, para esse
consumidor e para essa região do Brasil.
DB – Foi um crescimento lento, pois todo mundo achava que o
trade representasse promoções e eventos?
Adriano Amui – Pois
é, achava, mas isso não é verdade. Eis um exemplo: o marketing decide que vai
vender bala. Como ele acerta o tipo de embalagem, o tipo de caixa de embarque
que vai ser utilizada para o canal de auto-serviço, atacado e distribuidor, e
como ele prepara o seu distribuidor para atendê-lo? O treinamento que o
distribuidor irá receber é o mesmo que o atacado receberá, e que o auto-serviço
também receberá? O nível de serviço que se espera do atacado é o mesmo que se
espera do distribuidor? Não é o mesmo. É completamente diferente, e você tem de
entender como montar essa estratégia. Outra coisa: se as indústrias crescem e a
área de serviços também cresce, é preciso que haja alguém para vender esses
produtos, mas falta vendedor no Brasil. O vendedor que atende hoje não foi
preparado para prestar serviço, ele foi preparado para realizar outro tipo de
prática, não foi orientado nem preparado para isso. As empresas precisam
investir na qualificação e treinar esse vendedor para essa realidade de mercado.
DB – Como o trade marketing pode ajudar a equipe de
vendas?
Adriano Amui – O trade marketing precisa identificar
para o pessoal de vendas as oportunidades de mercado, e levar esse conhecimento
ao distribuidor. No atacado generalista, a responsabilidade pelo negócio é do
atacadista e eu acho que o treinamento se restringe drasticamente a um book e a
um vídeo de lançamento. No atacado, é comum a indústria reunir a equipe de
vendas para fazer um treinamento em massa e mostrar o que é o lançamento. O que
resta é colocá-lo no cadastro e no catálogo e soltá-lo na rua. Mas isso não pode
continuar, a indústria precisa qualificar e treinar o pessoal para que o
vendedor saiba abordar o cliente e possa se tornar um consultor do pequeno
varejo.
DB – Quais são as práticas viciadas no trade
marketing?
Adriano Amui – No que se refere às vendas, ainda
há práticas para as quais vender é entubar o cliente (selling). Uma venda é
feita em duas etapas. O selling significa vender por canal e a etapa dois
significa que o canal vende para o consumidor final (sell-out). Se uma prática
estiver muito arraigada, basta transformá-la em selling. Funciona assim: o
distribuidor é meu amigo, tem vínculos com a minha empresa e eu preciso fechar o
ano. Para quem eu vou entubar de produtos? Para o distribuidor. E o que acontece
com essa pessoa? Ela recebe mais produtos do que tem condições de vender, e
também mais produtos da condição financeira que ela tem de pagar. Quando virar o
mês, vai haver confusão, pois o produto terá de voltar e isso só traz prejuízo
para o seu canal e para a sua indústria. Essa é uma prática que precisa acabar.
Muito mais importante que a venda de selling é a venda de sell-out, ou seja, eu
não preciso ficar preocupado em vender para o auto-serviço, mas preciso me
preocupar com a quantidade que o auto-serviço está vendendo para fora. Quanto
mais ele vender, mais eu reponho. Isso é obvio, mas é assim que funciona. As
pessoas ainda estão preocupadas com o selling.
DB – Atualmente, as indústrias e os atacadistas
distribuidores estão se preocupando mais com seus clientes do que
antes?
Adriano Amui – Estão, mas a grande dificuldade para
as equipes de venda do trade marketing é o sell-out, pois em muitos casos ainda
não é transparente o que é o sell-out. Quem consegue dominar essa informação é a
indústria de cerveja, que está completamente automatizada e mede isso
diariamente. Agora, se você perguntar para o atacado e para o distribuidor como
ocorrem as vendas do pequeno varejo para determinado cliente, eles terão uma
certa dificuldade para responder, mas isso é uma questão de amadurecimento, de
se perguntar quanto se vende e de começar a provocar desafios. É preciso
estabelecer novos patamares de venda baseando-se no sell-out, que é discutido no
relacionamento entre fornecedor e varejista. É preciso parar com as vendas de
grandes lotes, parar de exercer pressão. Isso é absurdo.
DB – Isso já acontece?
Adriano Amui –
Muito pouco.
DB – O que fará com que aconteça?
Adriano Amui
– O primeiro ponto é a educação. O segundo ponto é a cultura, e cultura
demora para mudar. A educação vai trazer profissionalização e vai trazer
resultados, e os resultados vão ajudar a mudar a cultura.
DB – Então, uma preocupação maior com o sell-out é capaz de
melhorar a venda e criar fidelização?
Adriano Amui – Claro,
e isso pode ser resolvido de maneira rápida e fácil com o gerenciamento de
categoria, que é abordado como um negócio caro, complexo e utilizado somente por
empresas gigantes. Acredito que esse gerenciamento precisa ser mais
capilarizado. Você pode chamar isso de atender o cliente de maneira customizada.
É uma ação que consiste em entrar num estabelecimento de pequeno varejo e gastar
dez minutos do varejista olhando sua loja. Então, quem atende aproxima-se da
gôndola, mede o tamanho da categoria, a quantidade do seu produto que está
presente e o quanto o seu produto representa em vendas. A idéia é mostrar ao
varejista que determinado produto vende mais e que ele ganha mais com esse
produto, mesmo sendo mais caro do que os outros. E também lhe mostrar que ele
ganha mais dinheiro com você do que com outros fornecedores, e pedir mais espaço
na gôndola. A idéia é mostrar a ele as vantagens e os serviços que você lhe
oferece para que a questão do preço saia da pauta e ele o enxergue como um
parceiro que o ajuda a melhorar sua rentabilidade e suas vendas. Transformar em
ação de sell-out: quando essa estratégia começar a funcionar direitinho, todo
mundo vai ganhar mais.
DB – Isso leva tempo?
Adriano Amui – Em
dez anos, teremos uma boa evolução, pois o auto-serviço e o atacado distribuidor
amadurecem e entendem isso mais rapidamente. Mas o pequeno varejo leva mais
tempo. Nós temos de quebrar barreira e mostrar que existe uma relação
ganha-ganha. Esse não é apenas um clichê de vendas, aquele onde o vendedor só
vem para tirar vantagem. Ele também tem de ser consultor, e não apenas vendedor.
Isso é uma coisa típica de venda consultiva de pequeno varejo.
DB – E os Distribuidores Especializados Categorizados
(DECs)?
Adriano Amui – São experiências boas e no Chile há
uma loja de cash&carry onde você compra candies e outros produtos, e onde
está o material para o ponto-de-venda que você pega depois das compras no final
da loja. Acredito que essa seja uma solução boa que a gente ainda não tem aqui.
DB – É uma solução cara?
Adriano Amui –
Nada. Fica um cara no fundo da loja cuidando de todo o material que vai para o
ponto-de-venda, mas no Brasil isso ainda não foi instituído por causa de todos
esses fatores sobre os quais conversamos. E, no fundo, ela não faz parte do
raciocínio do cash&carry, que está em fase de amadurecimento no Brasil. O
distribuidor já tem à sua disposição o material dele, que é distribuído aos
pontos-de-venda. O cash&carry pode ser um bom veículo para você levar o
material desde o ponto-de-venda até o pequeno varejo por meio desse mecanismo
positivo que existe no Chile.
Fonte: Revista Distribuição
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