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Acompanhe os pontos de vistas de nossos profissionais em entrevistas exclusivas sobre temas variados dentro do mundo de Vendas, Trade e Marketing.
01/03/2010
VM: Você
acredita que a crise financeira trouxe alguma mudança para a forma de pensar o
marketing no Brasil?
Adriano Amui: Na realidade, as mudanças que
já estavam em curso foram apenas confirmadas pela teórica crise financeira. Me
refiro a ela como teórica pois o impacto no Brasil foi mínimo e a retomada foi
espetacular.
De forma concreta, o aumento da competividade global estreitou
as margens e provocou a busca de novas formas de pensar e agir empresarialmente.
O formato de aplicação de marketing, outrora completamente calcado em veiculação
de mídia, se torna ao mesmo tempo mais estratégico e operacional (leia-se
através de uma melhor palavra: execução). Os profissionais de marketing foram
obrigados a repensar os recursos disponíveis, buscando “fazer mais com menos”,
através dos recursos pouco explorados dentro da empresa.
Em termos
estratégicos, a etapa de planejamento de marketing nunca esteve tão em voga: com
investimentos reduzidos, nada melhor do que operações com precisão cirúrgica. E
ao mesmo tempo, o pensamento de marketing passa a incorporar gradativamente a
realidade e necessidade a estrutura de vendas e dos canais de
distribuição.
Dentro do contexto operacional, a proliferação de Agências de
Trade Marketing, e equivalentes, é máxima. Junto a esta preocupação com o ponto
de venda, surge de forma importante um novo elemento: o Shopper. E a expressão
ROI passa a fazer parte do vocabulário de 100% destes profissionais.
Uma das
medidas mais inteligentes estabelecidas em função deste novo formato de
Marketing foi a maximização do investimento em treinamentos: alta demanda por
trabalhos diferenciados relacionados a argumentação de vendas, incluindo
proposta de valor ao consumidor, ao shopper e ao canal, dentre outros.
Tudo
isso, significou uma importante mudança na forma de pensar o marketing e tende a
deixar marcas duradouras e muito positivas, marcando a efetividade de uma
reconstrução da área sob um prisma mais ligado a mensuração de resultados e
efetividade da força de vendas.
VM: Em um de seus artigos, você
menciona mudanças estruturais e culturais que revolucionarão o universo das
vendas. Em quanto tempo você acredita que essas mudanças serão colocadas em
prática? Em que consistem essas mudanças?
Adriano Amui: Na
realidade é uma transformação contínua. A cada segundo mudanças são incorporadas
à rotina do mercado. De certa forma é muito rápida, ou seja, em até 10 anos
viveremos novos tempos.
Estas mudanças podem ser bem representadas por:
aumento da concorrência no varejo; o foco em maximizar a rentabilidade; a
dificuldade em encontrar gestores para dirigir estes movimentos; a inserção
crescente das classes C e D no consumo; a regionalização; a estruturação da área
de trade marketing; o crescimento do número de consumidores e shoppers
conscientes nos pontos-de-venda; a chegada da TV digital no Brasil; o
reconhecimento do celular como mídia de massa e mecanismo de compra e venda de
produtos e serviços; e por fim o advento dos rótulos inteligentes, potenciais
substitutos do código de barras, são alguns dos exemplos que sinalizam a chegada
de uma revolução silenciosa.
VM: Em que o aumento da concorrência no
varejo está modificando as práticas atuais?
Adriano Amui: Com o
aumento da concorrência, a disputa pelo maior quinhão da margem de contribuição
da cadeia se intensifica. Por um lado o varejista, que naturalmente passa
exercer enorme pressão sob os múltiplos fornecedores, e estes que precisam
identificar formas de transpor possíveis barreiras negociais e minimizar perdas
financeiras. Sendo prático, o grande prejudicado é o consumidor, que de uma
forma ou de outra tem o preço de compra impactado.
Com maior estabilidade
econômica, percepção de valor, ofertas, internet, maturidade como consumidor,
este passa a não se sujeitar de forma tão passiva a um preço definido pelo jogo
de forças da cadeia de valor. Como resolver esta questão ? A clara definição da
proposta de valor ao consumidor, associada ao entendimento do shopper, e a uma
execução muito bem feita.
VM: E o foco em maximizar a rentabilidade?
Essa é uma prática com dias contados ou que nunca esteve tão em alta? Por quê?
Adriano Amui: Nunca esteve tão em alta. Este aspecto pode ser
enfocado por dois aspectos que são complementares.
O primeiro aspecto tem a
ver com a questão de que a rentabilidade é fator crítico para a sustentabilidade
da organização. Sem rentabilidade, não existe “business”. Este aspecto pode ser
tangibilizado através de um simples exemplo: a crescente capacitação da equipe
comercial e trade marketing para entendimento da margem de contribuição e sua
aplicação em pricing, negociações e verbas, contratos e ações promocionais.Bem,
posto que é crítico, devemos dar a máxima atenção, mas eu faço uma ressalva
através do segundo aspecto.
O segundo aspecto se trata de compreender que
ações, tanto comerciais quanto de Marketing e Trade, tem como princípio agregar
valor a organização. E com este fim, algumas ações tem outros objetivos que não
se quantificam no curto prazo, mas cumulativamente fazem a diferença à frente.
Podemos citar como exemplo, ações com objetivo de reforçar a marca, e aumentar a
distribuição numérica. Portanto a chave para equalizar estes dois pontos é: o
planejamento de cada uma das ações deve ser iniciado com o estabelecimento claro
de objetivos, e alinhamento destes com toda a cadeia. Desta forma otimizaremos o
investimento em sintonia com os objetivos de curto, médio e longo prazo da
organização.
VM: Em que a inserção crescente das classes C e D no
consumo modificará o cenário atual?
Adriano Amui: De faixa
marginal no mercado, os consumidores da base da pirâmide se tornaram
prioritários na estratégia de crescimento de empresas de vários segmentos. Mas,
diferente do que acontece nas faixas mais altas de consumo, a base tem uma
dinâmica própria, que muitas vezes é refratária às formas convencionais de
comunicação e promoção. Entender esta característica e adaptar modelos de
fabricação, distribuição e promoção será essencial para obter sucesso e
conquistar uma nova camada de clientes.
E a oportunidade não é pequena. Se
fosse tratado como um país a parte, o mercado BDP (Bottom of Pyramid ?) para
consumo de alimentos em regiões como África, América Latina, Ásia, Caribe e
Leste Europeu representaria um faturamento total de US$ 1,53 trilhão, com uma
população estimada em 2,16 bilhões, Destes, estima-se que cerca de US$ 200
bilhões em alimentos seriam consumidos na América Latina.
Para se ter uma
idéia do tamanho desta oportunidade, só no Brasil, segundo estudos da Data
Popular, as classes C, D e E já respondem pela metade do consumo no País. A
maior expansão entre estas divisões aconteceu na classe C, que entre 2002 e 2007
obteve um acréscimo de renda da ordem de R$ 79,5 bilhões, cifra que nas faixas D
e E representaram um acréscimo adicional de mais R$ 38,7 bilhões.
Para captar
estas oportunidades, algumas ações são fator crítico de sucesso. Dentre ela
destaco: revisão na concepção de produto; adaptação; distribuição e
relacionamento; serviços segmentados;
VM: Em nossa entrevista
para o início de 2009, você comentou que o trade marketing já é uma realidade
nas empresas. Como você visualizou o crescimento disso ao longo do ano e qual a
sua expectativa para 2010? Empresas que não se preocuparem com isso estão
fadadas ao fracasso?
Adriano Amui: O crescimento foi
surpreendente, com a criação de áreas e contratação de diversos profissionais
nomeados em funções relacionadas ao universo de trade marketing e inclusive com
projetos pioneiros e inovadores .
Minha expectativa para 2010 é a crescente
demanda pela formação extra-acadêmica em Trade Marketing, através de cursos,
seminários, livros, fóruns e encontros, uma vez que esses profissionais buscam
buscam um sentido muito prático em sua formação e desenvolvimento profissional.
Nesse contexto, o INVENT® - Instituto Nacional de Vendas e Trade Marketing irá
lançar o seu livro de Trade Marketing . A nossa idéia é embarcar dentro da Free
Economia e ao mesmo tempo auxiliar os profissionais a debaterem os conceitos e
práticas .
Acredito que as empresas que não acreditarem legitimamente na
crescente responsabilidade de trade marketing e seu papel neste novo modelo de
negócios em que o PDV e o Shopper passam a exercer função crucial, deixarão de
ser competitivas e terão dificuldade no relacionamento com os canais e menor
eficiência em suas ações.
VM: Você também acredita que em
pouco tempo o celular será reconhecido como mídia de massa. Como aproveitar esse
potencial?
Adriano Amui: O uso de campanhas via celular foi
rapidamente difundido no mercado como “a mesma abrangência de um meio de
comunicação de massa e a assertividade do marketing direto”. Dessa forma, ganhou
força e adesão por empresas de diferentes portes que destinaram parte de seus
investimentos em campanhas de massa para o conceito de Mobile Marketing, como
foi o caso de Unilever, Itaú, dentre muitas outras.
A idéia inicial de envio
de mensagem via SMS foi ampliada para uma série de possibilidades e componentes
mobiles (aplicativo mobile, mobile game, mobile site, móbile advertising, dentre
outros). Nesse sentido, a principal barreira encontrada pelas empresas tem sido
a avaliação do exato retorno financeiro, que acaba sendo mais qualitativo do que
quantitativo.
Outras empresas como a Syngenta e Cardif, utilizaram este
conceito como forma de ação dirigida, o Mobile Marketing serve nestes casos como
forma de sustentação de campanhas de vendas e manutenção de treinamentos
comerciais. As empresas que passaram a apostar nesse conceito com ações
call-to-action, puderam interagir com seus clientes através de enquetes,
pesquisas, promoções e informações úteis disponíveis como mídia permanente,
acessada pelo target a qualquer momento em qualquer lugar.
VM:
Em que o papel do vendedor como conhecemos hoje será modificado?
Adriano Amui: As indústrias passam a operar com vendedores
experientes com forte habilidade relacional e também negocial, e com grande
experiência em negociação de grandes volumes sob grande pressão. São
profissionais que devem se atualizar no quesito sell-out, posto que normalmente
são vendedores mais antigos e de uma época em que os grandes fatores de
negociação eram preço e volume. Também se faz necessário que sejam hábeis no
entendimento de finanças aplicada a vendas, e compreendam claramente os impactos
financeiros de suas negociações, em especial a margem de contribuição e como
maximizar este indicador de rentabilidade através de mecanismos comerciais, como
por exemplo, a gestão de venda de mix / portfólio. Para esse público, as grandes
corporações tem desenvolvido o argumentário de vendas, como guia de referência e
auto-desenvolvimento para o profissional de vendas, além de propiciar uma
uniformização do discurso praticado pela empresa, junto aos seus clientes, sem
“achismos” e sem “chutes”. De forma geral, trata-se de uma venda profissional de
ambos os lados.
Por outro lado, existe o vendedor acostumado a lidar com
vendas miúdas, a lidar pessoalmente com o proprietário do pequeno varejo, com
verbas reduzidas para compra de produtos, com uma concorrência acirrada, e
dentro de um mix de produtos que costuma ser gigantesco e ao mesmo tempo deve
ser vendido num curto espaço de tempo. Para lidar com este mundo, cabe aqui a
constante qualificação em técnica de vendas e negociação, bem como a capacitação
em planejamento e gestão do tempo.
VM: Quais as principais mudanças
que o mercado publicitário enfrenta atualmente?
Adriano Amui:
Criar uma comunicação focada num novo tipo de consumidor. Um consumidor bem
diferente, que passa longe da passividade de décadas anteriores. Mais: um
consumidor que cruza referências, procura por outros que, como ele, partilham
das mesmas visões. É um agente ativo, diferente do mero comprador de produto.
Sim, porque, se o comprador encerra sua experiência no ato de aquisição, o
consumidor a leva adiante. É o caso do ferrarista que não só torce pela
escuderia de F1, como compra o boné e a camiseta oficiais e outros itens,
independente de poder comprar uma Ferrari.
VM: Qual a tendência para a
liberdade publicitária e comercial? Você acredita que ela será cada vez maior,
ou cada vez mais haverá imposições das agências reguladoras e da própria
sociedade?
Adriano Amui: As ondas de fiscalização da publicidade
por parte de entidades civis e públicas sinalizam o desdobrar de um movimento
que começou há muito tempo, que é o debate em torno do consumo consciente /
racional ou sustentável. É um debate antigo.
Considerando que o circuito
clássico da comunicação é baseado na conhecida tríade emissor - mensagem -
destinatário (desprezando o meio propositalmente), tal como foi estabelecido
pela mídia de massa, o canal de retorno sempre foi muito limitado. Por exemplo,
o que um consumidor incomodado com determinado produto ou mensagem poderia fazer
nos anos 70? Escrever uma carta a um jornal? Organizar um protesto? Agora note o
que ele pode fazer recorrendo aos canais digitais. A facilidade de organização e
o poder de mobilização dos prosumers dão a estas pessoas um poder de
questionamento indiscutível.
Minha tese é que este grau de questionamento
inédito ocorre de forma intensa pela possibilidade técnica, e também por um
desejo antigo, latente talvez, que é o de questionar as mensagens, desejo este
que permaneceu adormecido pela impossibilidade técnica de um indivíduo se fazer
ouvir. O que nos dias atuais não acontece mais...
Isso vale para a bebida,
para remédios, alimentos que engordam ou que contêm substâncias tóxicas ou
transgênicos, produtos fabricados com mão de obra que trabalha em condições
subumanas ou que, em seu processo, acabam agredindo biomas ou afetando o meio
ambiente pelo uso desordenado de recursos naturais – o que é mal visto em tempos
de ‘sustentabilidade como prática corrente.
Fonte: Revista Venda Mais
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